Coliseu de Lisboa Rendido ao Metal Sinfónico: Charlotte Wessels, Amaranthe e Epica partilham palco

No Coliseu dos Recreios, a noite chuvosa de 1 de Fevereiro reuniu três propostas distintas do universo do metal, mas que acabaram por convergir num espetáculo coeso numa sala bem composta e participativa. Charlotte Wessels, cantora e compositora holandesa deu o pontapé de saída com o seu projeto a solo, num registo mais intimista, mas ainda assim profundamente ligado às raízes do metal sinfónico que a tornaram conhecida como vocalista dos Delain. A voz mantém a clareza e o alcance que lhe é reconhecida, mas agora revela uma maior maturidade e uma densidade emocional que assenta bem nas novas canções de «The Obsession». Apesar do tempo relativamente curto em palco, a atuação foi intensa, com a guitarra expressiva de Timo Somers a dar o mote e um final épico com «The Exorcism», deixando a sensação de que esta fase pós‑Delain é tudo menos um apêndice na carreira da cantora. Seguiu-se Amaranthe, banda sueca formada em Gotemburg em 2008 e que fazia a sua estreia em terras alfacinhas. Os Amaranthe trouxeram a vertente mais moderna e eletrónica da noite, com o seu “Massive Modern Metal”, como eles mesmos se identificam .  A energia da atuação foi evidente, com a banda a envolver a plateia em ritmos vibrantes e dinâmicos que exploraram tanto os êxitos mais conhecidos quanto os temas do seu mais recente álbum. A banda, construiu a sua identidade em torno da fusão entre guitarras pesadas, elementos eletrónicos e três vozes distintas. O contraste entre o registo limpo de Nils Molin, a versatilidade de Elize Ryd e os rugidos de Mikael Sehlin criou uma dinâmica imparável capaz de fazer o público saltar e cantar. Temas como “Digital World” ou “Drop Dead Cynical” transformaram o Coliseu numa pista de dança de metal. Era impossível ficar indiferente à energia transbordante de Elize, que domina o palco como poucos, reforçando a imagem do grupo como uma força imparável do metal contemporâneo, com milhões de streams e centenas de milhares de discos vendidos a sustentarem essa posição. No encerramento da noite, Epica, banda holandesa formada em 2002, apresentou nesta Arcane Dimensions Tour um set que combinou a grandiosidade do metal sinfónico com uma produção de palco impressionante. Um espetáculo visualmente ambicioso e conceptual, transformando o palco num cenário quase futurista, saturado de luzes, projeções e detalhes cénicos. A abertura com uma figura mascarada a apelar ao “larga o telemóvel e vive o momento” preparou o terreno para «Apparition», que entrou logo com grande impacto, e mostrou uma banda segura do seu novo capítulo com o álbum «Aspiral». Simone Simons, que continua a ser uma das vozes mais sublimes do género, surgiu envolta em véus e sombras, num posicionamento elevado que reforçou a dimensão teatral do concerto. Um dos instantes mais fortes da noite aconteceu quando Charlotte Wessels voltou ao palco para um dueto intenso com Simone Simons, durante «Sirens – Of Blood And Water», com ambas recortadas em silhueta contra um cenário de nevoeiro e luzes minimalistas Foi uma noite sem pontos mortos. Do intimismo progressivo de Charlotte à euforia futurista dos Amaranthe, culminando no poderio sinfónico dos Epica, o público de Lisboa saiu do Coliseu satisfeito com o que viu e ouviu. O contraste entre o lado mais moderno de Amaranthe, o metal sinfónico majestoso dos Epica e a introspeção emocional de Charlotte Wessels acabou por funcionar em pleno, oferecendo ao público lisboeta uma noite diversa, mas unida por um fio comum: grandes vozes, produção cuidada e canções pensadas para soar ainda maiores ao vivo. Fotos: Jorge Pereira / Imagem do Som